Casa de Ferreiro, Espeto de Pau

Por Thiago Schwinke Vidal

Ao subitamente convocar Sessão Extraordinária que resultou na aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 457/2005, que aumenta de 70 para 75 anos a idade de aposentadoria compulsória dos Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), dos tribunais superiores e do Tribunal de Contas da União (TCU), Eduardo Cunha impôs dura derrota ao Governo. Poderia ter sido apenas mais um dentre os vários constrangimentos que o Presidente da Câmara tem criado ao Executivo, não fosse o modo como se deu a votação e, sobretudo, o impacto na já minguada governabilidade de Dilma Rousseff.

Após a votação da PEC em primeiro turno, Eduardo Cunha sabia que a aprovação no turno seguinte não seria tão simples. Decidiu, pois, esperar até que o Plenário da Casa estivesse cheio o bastante para dirimir quaisquer chances de a matéria não vingar em razão de baixo quórum. O esforço do Governo em mobilizar sua base com vistas à aprovação da MP 665/2014 foi, então, fatal para que o Presidente da Câmara encerrasse a Sessão e convocasse outra logo em seguida, dessa vez para votar a referida PEC.

Muitas são as especulações sobre as próximas cartadas de Eduardo Cunha, mas na fila de espera figura, sem dúvida, a PEC 299/2013, que fixa em 20 a quantidade máxima de Ministérios. Trata-se de proposição legislativa de alto apelo social, especialmente se considerado que, hoje, o número chega a assustadores 38.

É preciso ressaltar, no entanto, que tal quantidade pouco ou nada diz sobre os reais impactos financeiros ao erário. Muitos dos Ministérios possuem orçamentos pouco significativos, fato que, a propósito, compromete a eficiência daqueles órgãos no cumprimento de suas obrigações.

O Ministério da Pesca E Aquicultura, que não raras vezes é utilizado como exemplo para se questionar a logística ministerial, teve, em 2014, orçamento de R$ 498 milhões, 0,017% do total estipulado na Lei Orçamentária Anual de 2014 – R$ 2.383.177.997.310.

Outras pastas que, segundo as críticas, poderiam ser extintas ou incorporadas a demais Ministérios, como a Secretaria de Assuntos Estratégicos e a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, tiveram, no ano passado, orçamentos de, respectivamente, R$ 333 milhões (0,014%), de R$ 73 milhões (0,003%).

Mas se o impacto financeiro e orçamentário por si só não é suficiente para justificar a diminuição do número de Ministérios, poder-se-ia, então, recorrer à otimização da Administração Pública, este, sim, argumento plausível e realista, principalmente quando identificado que poucos são os Ministros de Estado que conseguem levar seus pleitos à Presidente da República. No caso de Dilma Rousseff, reconhecidamente centralizadora, a baixa frequência de despachos com alguns Ministros, de fato, prejudica a dinâmica interna daqueles órgãos.

Se, por um lado, critica-se a quantidade de gabinetes atualmente existentes, por outro, é essa conjuntura que permite a fluidez do que muitos preferem chamar de Presidencialismo de Coalizão. Em outras palavras, dificilmente se conseguiria acomodar nos primeiro e segundo escalões da Administração Pública as indicações feitas por parlamentares e partidos políticos, caso se concretizassem propostas como a PEC 299/2013. É imperativo citar também que a fragmentação político-administrativa não é característica particular ao Executivo.

Outros Poderes, como o próprio Legislativo Federal, têm há muito promovido modificações em suas estruturas com vistas à acomodação de partidos políticos, notadamente na Câmara dos Deputados. Recentemente, a Câmara promoveu o desmembramento de duas Comissões Permanentes para permitir que determinadas legendas partidárias pudessem ter direito à Presidência de colegiados e, consequentemente, às suas estruturas administrativas. Isso porque, segundo a lógica de proporcionalidade vigente, alguns partidos que não possuíam quantidade significativa de parlamentares ficariam alijados quando da divisão e da escolha das Comissões.

Assim é que, por exemplo, a então Comissão de Educação e Cultura (CEC) foi transformada nas Comissão de Educação (CE) e na Comissão de Cultura (CCULT). Já a outrora denominada Comissão de Turismo e Desporto (CTD) foi desmembrada em Comissão de Turismo (CTUR) e Comissão de Esporte (CESPO). Às novas estruturas administrativas decorrentes dessas divisões somem-se as criações de cargos e funções comissionadas na Câmara que, apenas em 2014, geraram impacto de R$ 2.838 milhões, num orçamento total de cerca de R$ 5 bilhões.

Embora a justificativa dos parlamentares para embasar tais modificações geralmente seja a necessidade de se poder discutir, individualmente, cada um dos temas, dada a importância que possuem, não é isso que se verifica no dia a dia. Nas pautas deliberativas da CCULT, por exemplo, raramente constam outras proposições que não aquelas que instituem datas comemorativas ou que alteram a denominação de pontes e estradas.

Há um longo caminho até que a PEC 299/2013 seja convertida em Emenda Constitucional – caso se confirme sua aprovação, inclusive pelo Senado Federal. Mas não é preciso esperar até o fim do processo para afirmar que se trata de proposta meritória, cujo conteúdo deve, sim, ser discutido.

Mas independentemente de sua eventual aprovação ou não, não pode a PEC servir de pretexto para  que o Legislativo – e em especial a Câmara dos Deputados – furte-se à sua obrigação de ir ao encontro do que tem tentado impor ao Poder Executivo, por revanchismo ou por generosidade, sob pena de ampliar o atual descrédito da instituição perante a opinião pública.

*Bacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e Assessor Legislativo da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.

**A opinião do autor é estritamente pessoal e não necessariamente reflete o posicionamento da instituição à qual se vincula.

Ajuste Fiscal: Erro no Tom

Por Thiago Schwinke Vidal

Às vésperas da votação das Medidas Provisórias 664 e 665 de 2014, as primeiras de muitas que ainda deverão chegar ao Congresso Nacional com vistas ao cumprimento do ajuste fiscal, Dilma Rousseff e seus auxiliares ainda não deixaram claro o que realmente pretendem com tais medidas.

Se, por um lado, o líder do Governo na Câmara dos Deputados concede entrevistas rejeitando o caráter de ajuste das MPs, por outro, o ministro da Fazenda e a própria Presidente da República enxergam na 664 e na 665 juntas a única saída para que o País não perca seu grau de investimento e assegure as mínimas condições de retomar o crescimento econômico.

O líder do Governo não peca ao dizer que as MPs apenas corrigem distorções, como as verificadas quando da concessão do seguro-desemprego e do seguro-defeso. De fato, tratam-se de defeitos há muito conhecidos por gestores públicos e cujos impactos ao erário superam o aceitável. Mas as soluções, embora igualmente sabidas, não são de fácil implementação e jamais teriam sido propostas pelo Partido dos Trabalhadores se as condições econômicas assim não exigissem.

O ponto, no entanto, é outro: como convencer a base aliada no Congresso da importância do conteúdo das duas Medidas Provisórias, quando nem o Governo possui um discurso unificado? Se em circunstâncias normais já seria difícil a defesa de projetos que vão de encontro ao que foi inúmeras vezes repetido por Dilma Rousseff em sua campanha à reeleição, não contar com a contundência de sua atual Administração torna a tarefa ligeiramente mais árdua.

Tratar ajuste fiscal e correções de desvios como variáveis distintas é, hoje, o grande erro do Governo, pois o reconhecimento público de tal diacronia implica, igualmente, em sua negação. Houve tempo suficiente para que Dilma e seus assessores mais próximos ensaiassem a orquestra e convencessem seus pares, mas, a julgar pela atual conjuntura, não poderão reclamar se o resultado lhes for desfavorável.

*Bacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e Assessor Legislativo da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.

**A opinião do autor é estritamente pessoal e não necessariamente reflete o posicionamento da instituição à qual se vincula.

Terceirização: Fuga ao Tema

Por Thiago Schwinke Vidal

A Câmara dos Deputados poderá votar, esta semana, o Projeto Lei 4330/2004, de autoria do ex-deputado Sandro Mabel (PMDB/GO), que regulamenta a terceirização. Por um lado, busca-se sacramentar algo que hoje é amplamente praticado por todo País. Por outro, trata-se do reconhecimento da falência da legislação trabalhista vigente, e da incapacidade demonstrada por formuladores e executores de políticas públicas de corretamente aplicar tal ordenamento jurídico.

É sintomático que, às vésperas da provável aprovação do referido projeto de lei, estejam carreiras responsáveis pela fiscalização das relações de trabalho em situação similarmente constrangedora àquelas que buscam combater.

Segundo estudo elaborado pela Central Única dos Trabalhadores – CUT e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – Dieese, os trabalhadores terceirizados, que somam cerca de 12,7 milhões de indivíduos (6,8%) do mercado de trabalho, recebiam, em dezembro de 2013, 24,7% a menos do que os que tinham contratos diretos com as empresas, tinham uma jornada semanal de três horas a mais e estavam mais suscetíveis a acidentes de trabalho.

Os dados tornam-se mais alarmantes ao demonstrarem que, dos dez maiores grupos de trabalhadores em condições análogas à escravidão resgatados entre 2010 e 2013, 90% eram terceirizados.

O princípio verificado no PL 4330/2004 não é de todo maléfico se o que se objetiva é a dinamicidade das relações de trabalho. No entanto, se tais fundamentos teóricos  precisam ser trazidos à luz do debate, é igualmente necessário que tenham como pilar a defesa dos trabalhadores, independentemente  da forma como são concebidas as relações empregador-empregado.

Hoje, infelizmente, não é isso que se verifica, pois é claro o confronto, no texto do projeto, à Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho – TST, que proíbe a terceirização como atividade-fim, e à isonomia salarial entre terceirizados e funcionários diretos.

Em tempos de ajuste fiscal, a eventual aprovação do PL 4330/2004 coloca em xeque toda e qualquer crítica manifestada por deputados e senadores contra as Medidas Provisórias (MP) 664 e 665/2014, pois se elas, de fato, retiram direitos dos trabalhadores, a defesa da terceirização de nada serve como contraponto aos efeitos que as propostas do Governo podem produzir. Pelo contrário: acentuam-nos.

Destarte, é crucial que o Parlamento brasileiro retome o foco do debate de modo a compreender as razões que hoje levam à precarização das relações de trabalho ao invés de querer agravá-la. A modernização das relações de trabalho e sua consequente dinamização são vitais para o País, desde que assegurada a correta fiscalização pelo Estado e, acima de tudo, respeitada a dignidade do trabalhador.

*Bacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e Assessor Legislativo da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.

**A opinião do autor é estritamente pessoal e não necessariamente reflete o posicionamento da instituição à qual se vincula.

Sem Conselho, Sem Ajuda

Por Thiago Schwinke Vidal

Sejamos honestos: o Governo entrou em coma. Não porque esteja no aguardo de um impeachment, ou de um golpe dado por setores da sociedade civil e militar. Mas porque, passados apenas quatro meses desde que foi reeleito, o esforço para se legitimar perante à opinião pública tem sido improdutivo – e, convenhamos, constrangedor.

Igualmente inócuas foram as tentativas de aproximar o PMDB das decisões do núcleo político do Palácio do Planalto. Em tempos de descontentamento, a reconciliação não apenas permitiria à Presidente obter um mínimo de governabilidade, como lhe possibilitaria a descentralização do ônus de medidas impopulares. Dilma, porém, já deixou claro que não pretende afagar quem quer que seja, mesmo que isso lhe custe demasiado alto.

O que fazer, então, perguntam-se analistas e comentaristas políticos? Os mais misericordiosos talvez recorram à reforma política, à reforma ministerial, ao anúncio de benefícios socioeconômicos que atenuem os efeitos negativos dos ajustes fiscais em curso.

Os mais pragmáticos dirão: não há nada a ser feito. Benjamin Franklin, em citação a ele supostamente atribuída, certa vez afirmou que “quem não quer ser aconselhado, não pode ser ajudado”. Este é o atual contexto em que se encontram a Presidente Dilma Rousseff e, consequentemente, seu Governo.

Não é de hoje que Dilma repele todo e qualquer tipo de aconselhamento. Quando cede a terceiros, cortesia geralmente restrita ao ex-Presidente Lula, dificilmente pratica o que ouviu. Foi assim na reforma ministerial, foi assim nas negociações envolvendo as Presidências da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, e muito provavelmente será assim até o fim de seu segundo mandato. Da mesma forma, quando instada a confrontar a imprensa e a opinião pública, Dilma Rousseff raramente abre mão de suas convicções: o combate à corrupção, a crise econômica, o pleno emprego e a inflação sob controle.

Na noite deste domingo (15), em meio a paneladas e buzinas, ficou evidente que a desconexão com a realidade não é característica apenas da Presidente, mas também de seus assessores. Ao comentar as manifestações, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, afirmou que os que estavam nas ruas não votaram em Dilma Rousseff, quase como se quisesse dizer “danem-se as ruas, ainda temos o apoio de, pelo menos, 50% da população”. Tivesse o cuidado de ler atentamente as pesquisas que recentemente foram enviadas ao Planalto, saberia que a base de apoio ao Governo já não é tão sólida quanto se imagina.

Mais grave, porém, foi o abismo verificado entre os discursos de Rossetto e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. As palavras pouco ensaiadas poderiam até mesmo confundir um telespectador desatento, pois, não obstante a proximidade física entre os ministros, estes pareciam representar dois Governos distintos.

Se, por um lado, a Administração Federal impõe ao País situações embaraçosas a cada pronunciamento oficial, por outro, a posição de parte dos manifestantes não é tão confortável quanto se gostaria. Muito embora o prezado leitor possa prontamente argumentar que um milhão de pessoas nas ruas não é fato a ser ignorado – e terá toda razão ao fazê-lo -, a personificação do descontentamento na pessoa de Dilma Rousseff é sintomático de uma sociedade que pouco ou nada conhece do sistema político brasileiro. Sistema este que, muito embora tenha a chefe do Executivo como peça crucial, igualmente atribui a outros agentes políticos relevância nada desprezível. Com efeito, concentrar as munições na figura da Presidente da República é atacar apenas parte do problema.

Costuma-se afirmar que, se não há o que dizer, é melhor que não se diga nada. Infelizmente, isso hoje vale para a Presidente e para seus ministros. Muito embora parte da inércia gerencial possa ser explicada por injustas acusações contra Dilma e seu Governo, cabem a ambos as iniciativas e, sobretudo, o diálogo. Afinal, em se tratando da Presidência da República, não se espera reação, mas execução. A letargia é, portanto, de total responsabilidade de Dilma Rousseff.

Não se deseja, claro, que o governo sangre, como aguardam líderes da oposição. Mas se algo podemos entender como denominador comum das mais de um milhão de pessoas que foram às ruas neste domingo é que a paciência – seja lá para o que for – se esgotou. Desse modo, aconselhar um Governo que não quer ser aconselhado é, pois, tarefa ineficaz. Ajudá-lo, irracional.

Mantida a atual conjuntura, os próximos três anos e nove meses tendem a proporcionar ao cidadão brasileiro experiência quase que metafísica, porquanto o tempo e o espaço da política certamente caminharão em passos mais lentos do que o percebido. Inexistindo qualquer fato que possibilite ao Governo fazer aquilo que dele se espera, baixas são as probabilidades de êxito para o País, afinal, prosperidade e governabilidade são conceitos quase que siameses. Ainda há tempo, mas para ser ajudada, há que saber ouvir. Para saber ouvir, é imperativo fazer política.

*Bacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e Assessor Legislativo da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.

**A opinião do autor é estritamente pessoal e não necessariamente reflete o posicionamento da instituição à qual se vincula.

Entre Fuzis e Pincéis

Por Thiago Schwinke Vidal

Injustificável sob qualquer aspecto, o terror praticado contra uma das mais famosas revistas francesas, para além da intolerância e da barbárie, chama a atenção por tocar na responsabilidade do jornalismo, ponto considerado caro aos seus praticantes e seguidores.

Não é a toa que, passado o choque inicial, veículos da mídia internacional já abrem espaço para repercutir o constrangimento que o Charlie Hebdo por vezes causou aos franceses. Especula-se, inclusive, que se deve à baixa aceitação de seu estilo humorístico a difícil situação financeira que acometeu o periódico ao longo dos últimos meses.

Reitero que a tentativa de calar o jornal, independentemente do tom por ele utilizado, não se justifica, pois os tiros foram, sobretudo, um atentado à liberdade e ao direito à vida. Apesar desse fato, jornalistas e demais integrantes da mídia não podem furtar-se à reflexão dos limites que cercam sua atuação.

Não se trata de estabelecer padrões a serem seguidos, engessando-se, por consequência, o formato jornalístico. Trata-se, em verdade, de entender como a rejeição aos extremos político, econômico e religioso, a exemplo do que defendiam os cabeças da revista francesa, pode ser ela própria transformada em extremismo e intolerância.

A liberdade de imprensa, mais do que um fim em si mesmo, é seu valor fundamental e, portanto, deve estar em consonância com outros princípios democráticos básicos. Não pode o humor jornalístico, sob o argumento da independência e da liberdade, querer estar acima de valores igualmente importantes. É o equilíbrio que sustenta sua sobrevivência.

O Charlie Hebdo não pode ser culpado pela tragédia desta quarta-feira (7), mesmo que suas edições tenham ido até as últimas consequências, mas sua condição de imprensa, certamente, permite-lhe ser criticado pelo modo como aborda problemas cotidianos.

Não faltarão oportunidades para que se discutam essas e outras delicadas questões. Por ora, resta-nos o luto e o decorrente consenso de que, seja qual for a crítica ou o formato jornalístico empregados, fuzis e pincéis não pertencem às mesmas prateleiras.

*Bacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e Assessor Legislativo da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.

**A opinião do autor é estritamente pessoal e não necessariamente reflete o posicionamento da instituição à qual se vincula.

As Lições de Obama à Oposição Brasileira

Por Thiago Schwinke Vidal*

A reaproximação entre Estados Unidos e Cuba, anunciada nesta quarta-feira (17) pelo Presidente Barack Obama, já entra para a história como um dos maiores acordos diplomáticos dos últimos 50 anos. Do ponto de vista da política interna norte-americana, ela representa um alívio para a administração Obama, que há meses amarga péssimos níveis de avaliação entre a opinião pública. Eleitoralmente, é, sem dúvida, uma carta na manga para que os democratas consigam frear a crescente onda de adesão de latinos ao Partido Republicano.

Os EUA sabem que o regime político que vigora em Cuba tem prazo de validade e por isso o país não pode ser desprezado. Além de um mercado consumidor de cerca de 11 milhões de indivíduos, o potencial da economia cubana pode ser verificado em números recentes: apenas este ano, Cuba importou cerca de US$ 14,778 bilhões, tendo exportado outros US$ 5,587 bilhões. Geograficamente, a ilha caribenha está situada em região estrategicamente importante: atualmente, as exportações oriundas do Caribe – excetuando Cuba – chegam a US$ 23.323 bilhões e as importações, a US$ 37.720 bilhões.

Ocorre que o anúncio desta quarta não representa um soco apenas no estômago de conservadores como Marco Rubio e Ted Cruz, hoje os representantes mais notáveis da direita latina norte-americana. É, igualmente, um desalento para a oposição brasileira, que há pouco menos de dois meses fez do ódio a Cuba e aos investimentos brasileiros naquele país um de seus principais lemas de campanha.

Em que pesem os inúmeros erros cometidos pelo governo da Presidente Dilma Rousseff – que não podem nunca ser ignorados ou diminuídos mesmo por seus apoiadores -, parece ficar cada vez mais claro que a oposição perdeu a recente eleição ao tentar impor ao Brasil uma realidade que, embora crítica, está aquém do terrorismo promovido por PSDB, DEM e outros.

Além de ignorarem o fato óbvio de que um país não pode se furtar a manter relações corretas com o maior número possível de parceiros, independentemente de seus respectivos vieses políticos, econômicos e ideológicos, as críticas que até hoje são feitas pelos oposicionistas envolvem-se numa mentalidade de guerra fria que as tornam não apenas anacrônicas, mas quase cômicas, ao desconsiderarem elementos fáticos.

Ironicamente, coube aos Estados Unidos expor parte dos equívocos cometidos pela oposição brasileira. Ao retomar o diálogo com os irmãos Castro, Obama evidencia que, em meio a um crescimento médio global de não mais que 2,8% ao ano, privar-se da ampliação de redes comerciais é tudo menos uma solução. Perde, assim, Aécio Neves com seu maniqueísmo ideológico e econômico, e ganham Dilma Rousseff e seu antecessor a partir das recentes investidas em território cubano.

Restam ainda quatro longos anos até a próxima eleição presidencial no Brasil, mas o pleito que definirá o sucessor de Barack Obama à frente dos Estados Unidos está logo ali em 2016. Durante esse período, talvez devam Aécio e seus liderados ficarem atentos aos movimentos de Marco Rubio e Ted Cruz, pois, a despeito das particularidades que separam as oposições americana e brasileira, muitas também são as similaridades que ajudam a explicar por que ambos os segmentos têm sido incapazes de fazer frente aos governos cada vez mais desgastados de seus respectivos países.

*Bacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e Assessor Legislativo da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.

**A opinião do autor é estritamente pessoal e não necessariamente reflete o posicionamento da instituição à qual se vincula.

O Silêncio Constrangedor da Oposição

Por Thiago Schwinke Vidal*

As atrocidades proferidas pelo deputado Jair Bolsonaro (PP/RJ) da tribuna da Câmara na tarde de terça-feira (9), infelizmente, já não espantam. Estimulado pelo corporativismo de uma instituição que, tradicionalmente, tem sido conivente com desvios de conduta, o parlamentar faz do confronto aos preceitos mais básicos da dignidade da pessoa humana a sua principal bandeira política. Se encararmos a Câmara dos Deputados como uma pequena amostra do Brasil real, o estímulo nauseante à violência e, particularmente, ao estupro, torna-se apenas mais uma demonstração do machismo que ainda impera na sociedade brasileira.

Curiosamente, à exceção do PSOL, nenhum dos parlamentares que saíram em defesa da deputada Maria do Rosário (PT/RS), a mais recente vítima de Jair Bolsonaro, pertence a partidos de oposição, ainda que deputados do DEM e do PSDB tenham presenciado o episódio. Claro que isso não os torna cúmplices do crime praticado no Plenário da Câmara dos Deputados, mas a omissão é, no mínimo, constrangedora.

A oposição passa, atualmente, por um importante processo de reformulação e fortalecimento. Ao longo dos últimos dias, e contrastando com a inércia de anos recentes, ela foi capaz de postergar a votação de um importante projeto de lei para o Governo Federal, mesmo que não tenha conseguido impedir sua aprovação, dado o reduzido número de parlamentares oposicionistas no Congresso Nacional.

Durante a longa votação da semana passada, mais do que a defesa da solidez fiscal, os partidos de oposição buscaram combater a intromissão do Poder Executivo na dinâmica legislativa. Para tanto, não pouparam críticas ao que denominam de atitudes antidemocráticas. Naquela terça-feira, diante da oportunidade de defender princípios primordiais a qualquer regime democrático, parlamentares daquelas mesmas legendas optaram pelo silêncio.

Os que acompanharam com afinco as últimas eleições e os que, diariamente, observam as movimentações pelos corredores do Parlamento, percebem que ainda falta ao PSDB, DEM e a algumas outras legendas um discurso que seja capaz de, de fato, diferenciá-los dos partidos governistas. Analogamente, parece ser de comum acordo que a tentativa dos oposicionistas de chegar ao poder por meio da desconstrução do atual Governo, e do PT em particular, não tem se mostrado eficaz.

Mais do que a busca por um horizonte que seja capaz de desbancar o status quo – e aqui me refiro a uma mensagem para além da economia e da real politik -, cabe à oposição recuperar o diálogo com a sociedade civil a fim de revigorar não apenas os partidos oposicionistas, mas a própria confiança nas instituições, em especial o Congresso Nacional. E esse trajeto passa, necessariamente, pela sintonia com os principais temas que movem segmentos importantes, tais como os movimentos sociais.

Tudo isso posto, os partidos de oposição encontram-se, hoje, diante de uma ótima oportunidade para mostrar ao Brasil que possuem alternativas à retórica cotidiana. Sair em defesa da deputada Maria do Rosário seria, simultaneamente, um gesto de respeito à parlamentar e um sinal de que os oposicionistas desejam aproximar-se das idéias e dos valores que, atualmente, encontram-se escanteados pelo Congresso Nacional.

Mas caso optem pelo silêncio, será difícil enxergar na oposição o meio político competente para realizar as mudanças que o País necessita, pois elas, com certeza, não se resumem aos discursos prolixos proferidos por seus parlamentares  de uma tribuna cada vez mais distante da realidade brasileira.

*Bacharel em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) e Assessor Legislativo da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.

**A opinião do autor é estritamente pessoal e não necessariamente reflete o posicionamento da instituição à qual se vincula.